Foi num daqueles dias de calor abrasador que descemos à Calçada do Combro. A loja, de aspecto minimal, está carregada de cor com a sua mais recente coleção. Entramos, damos dois dedos de conversa e voltamos a sair. Aqui, o caminho é sempre a subir – subimos as escadas de madeira escura até ao atelier. As janelas grandes iluminam o espaço, a rádio toca êxitos que já lá vão e as ventoinhas sopram fortemente. Todo o ambiente espelha a personalidade do criador: o minimalismo pacífico combinado com traços fortes, dos quais não conseguimos desviar a atenção.

Foi nos anos 90 que ficou conhecido como o enfant terrible da moda portuguesa, mas foi o seu talento para elevar a feminilidade que lhe concedeu 25 anos de carreira carregados de sucessos. Filipe Faísca é, possivelmente, um dos nomes mais sonantes do panorama criativo nacional. A sua marca é sinónimo de mulher. Mulher bem vestida, por sinal. Com uma abordagem espiritual, o objectivo máximo do criador é estabelecer uma relação apoteótica com a figura feminina através do estilo.

Como é que começa o seu dia de trabalho?

Começo por descer para o meu atelier. Gosto de chegar primeiro, antes das costureiras e das assistentes, para conseguir focar-me sobre o que temos para fazer e para preparar o dia de trabalho. A confecção a partir do atelier não é como uma produção industrial, é um processo criativo que se baseia no trabalho em equipa. Apesar de cada pessoa ter uma tarefa atribuída, a mesma peça passa por várias mãos. Estamos dependentes das necessidades dos nossos clientes e adaptamo-nos à realidade conforme ela se apresenta.

Partilha a casa com o local de trabalho, o que é incomum…

É uma situação que faz sentido para mim porque preciso de estar sempre perto das coisas que fazem parte da minha vida e a moda ocupa 90% dela. No entanto, com o passar dos anos, deixou de fazer tanto sentido quanto gostaria. Estou a tentar separar-me desta simbiose e aprender a separar o trabalho da minha vida privada. O facto de morar por cima do meu atelier e da minha loja causou-me alguns danos. Houve um momento em que o atelier estava dentro de minha casa, e isso criou-me graves problemas de privacidade, foi aqui que percebi que uma pessoa precisa de estar em paz.

Quais os sentimentos que pairam no ar do seu atelier?

A espiritualidade e o amor são os sentimentos que mais pairam aqui dentro. O meu trabalho é muito espiritual e eu acredito que a forma como lidamos com as coisas influencia o que produzimos. As coisas que são feitas com amor têm outra dimensão. Quando invocamos amor no trabalho que fazemos, esse sentimento traduz-se em qualquer coisa como “take care” em relação às pessoas que o vestem.

Há alguma história interessante que tenha acontecido dentro destas 4 paredes que valha a pena ser contada?

Eu tenho parcerias com várias marcas e uma delas é a Montblanc. A propósito do lançamento de uma nova caneta do Andy Warhol, pediram-me para vestir uma artista que iria actuar. Ela veio ter comigo e, como estava ocupado, recebi-a no atelier e não na loja (como é hábito). Apesar de não conhecer a cantora, já tinha uma opção pensada para ela, até porque o evento era inspirado no Studio 54. Começamos a falar, a trocar impressões e acabei por perceber que ela também tinha algumas dúvidas sobre quem é que eu era. À medida que a nossa conversa foi evoluindo, foi como magia, foi como naqueles truques de cartas, em que o mágico elimina as cartas até chegar à escolhida pela pessoa. Ela foi dizendo o que pretendia e o que gostava, mas sempre de pé atrás porque estava convencida que eu só fazia roupa para manequins e ela não tinha esse tipo de corpo. E depois, quando eu percebo que estávamos tão próximos da mesma coisa, daquilo que eu tinha pensado e daquilo que ela queria, dou-lhe o vestido inicial para experimentar. Quando se viu ao espelho, nem quis acreditar! Tanto eu como ela tivemos um arrepio – o vestido ficou-lhe impecável à primeira! Isto parece uma história muito simples mas quando se vive gera-se uma emoção muito grande, porque conseguimos elevar a auto-estima de uma mulher e isso é extraordinário! Ela saiu daqui muito feliz porque “uau, afinal eu cabo num vestido de um designer! Não preciso ser feito à minha medida, eu tenho as medidas de uma manequim!” A situação foi tão gira que nos tornamos amigos. E, ainda hoje, somos grandes amigos.

Quando desenvolve uma peça de roupa, qual o processo criativo pelo qual se guia?

Eu estou muito mais ligado ao corpo da mulher do que ao lado conceptual da moda. Considero-me uma pessoa muito cinestésica, portanto, quando estou a desenhar roupa de senhora, eu estou a ver o corpo, não estou a ver a roupa. Tão simples quanto isto. Temos de ter em conta que o meu objectivo é prestar um serviço à mulher, de cuidar dela, ouvir o que ela tem para dizer e perceber o que é que está em causa – os seus gostos, as suas preocupações – e encontrar uma forma de ultrapassar tudo isto, de modo a criar uma peça especial. O produto final nasce da relação entre mim e a cliente porque tudo isto vai muito além de um mero vestido, é uma experiência. Eu acredito que isto é um processo, e que eu e a cliente estamos a transmutar energias, sentimentos e emoções, até porque nós somos espelho uns dos outros! Não é por acaso que ela veio ter comigo, não é por acaso que nos cruzamos, por isso, é engraçado perceber que os objetos que criamos são sinais destas coisas.

Como é que gere o conflito entre a visão da cliente e a sua identidade enquanto criador?

Depende da situação, mas tem muito a ver com as nossas resistências, as minhas e as da cliente. Por vezes, não conseguimos estabelecer uma relação e, nesses casos, eu fico-me por aquilo que a pessoa quer. Quando isto acontece, não sinto que perco a minha identidade, até porque sou eu que escolho os materiais e trabalho-os à minha maneira – consigo sempre encontrar uma forma de fazer as coisas sem me sentir contrariado!

A única coisa que me perturba é trabalhar em cima da insegurança das pessoas. Quando o seu saber, os seus gostos e as decisões ou não-decisões estão edificados em cima da insegurança, aí em torno-me intolerante e tenho uma grande dificuldade em trabalhar com elas. O que vale é que tenho a sorte de trabalhar com mulheres que sabem o que querem. Mas, nos casos em que a mulher é insegura, é tudo uma questão de sedução: é fazer-lhe ver que o vestido fica bem e que não tem motivos para as inseguranças.

Uma inspiração?

A inspiração vem de todo o lado. Há uma coisa que, de facto, me inspira muito e é a matéria prima. Eu preciso de me apaixonar pelo tecido e isso inspira-me. Mas também gosto muito de dança, do movimento da mulher, de Pina Bausch, da cultura japonesa, como o Kazuo Ohno.

A música, claro! E o vintage – a moda é cíclica e eu sinto muito a necessidade de ir ao passado buscar inspiração e pormenores. Por exemplo, dá-me imenso gozo fazer cópias de peças antigas. Adoro ir à procura de um fato dos anos 60, da Balenciaga, do Christian Dior ou do Pierre Cardin e fazer uma cópia exacta! Adoro estes processos de retroceder no tempo e replicar o que já foi feito. Adoro! Adoro fazer a pesquisa, ir ao pormenor e descobrir todos os detalhes que ficaram esquecidos no tempo

Instagram – @filipefaiscabrand

Fotografia – Teresa Costa Gomes