Nasceu na Guiné mas foi uma Guerra Civil que o empurrou para Portugal. O que o fez ficar? A paixão pela representação! Igor Regalla é a próxima promessa da televisão e do cinema nacionais – mas não é isso que o define.

Encontrámo-nos na Timberland, em plena Avenida da Liberdade, num típico dia de inverno. O ar gelado combinado com o sol quente foi a atmosfera perfeita para conversarmos sobre os seus projetos e objetivos futuros – entre telenovelas, séries televisivas, o filme sobre a vida do Eusébio e a paternidade, o ator não tem mãos a medir. Despojado de qualquer artifício e com os pés (calçados com Timberland, claro!) bem assentes na terra, Igor é o epítome da descontração aliada à doçura.

 

COMO É QUE COMEÇOU A TUA VIAGEM PELO MUNDO DA REPRESENTAÇÃO?

Eu nasci na Guiné e vim para cá com 1 ano, com os meus pais, entretanto, regressamos para lá. Mas houve uma guerra civil que me obrigou a vir definitivamente para Portugal – nós fomos os primeiros refugiados a chegar e até fomos filmados pelos principais canais de televisão! – na altura, tinha 10 anos e comecei a refugiar-me no mundo dos jogos de computador. Aos 18 anos, caiu-me a ficha e percebi que não queria passar a vida atrás de um computador. Curiosamente, tinha um amigo que estava a frequentar um workshop de teatro e eu fui experimentar. Quando o workshop terminou, fiquei com o bichinho. Passado algum tempo, vi um flyer para um curso de teatro em Cascais e tudo fez sentido. Fui direto à escola, nem perguntei aos meus pais – foi uma inconsciência gigante! Fui aceite e decidi ficar em Portugal para poder frequentar as aulas mas a minha mãe regressou à Guiné – foi nesta altura que a viagem começou a sério!

 

COMO É QUE FOI O TEU PERCURSO?

Eu comecei por fazer teatro, passei pela publicidade e, depois, veio a primeira telenovela, a Água de Mar. Quando fui fazer o casting, não estava muito motivado. Era para um papel em que ia fazer de um jovem angolano que era professor de dança, tudo numa onda de verão e descontraída – e fiquei um pouco de pé atrás porque nunca tive aquele corpo que as pessoas gostam de ver na televisão. Mas correu muito bem e acabei por ficar. Foi a minha primeira experiência em televisão e foi muito giro! Depois veio a Única Mulher. Aqui sim, já senti a mudança e foi assustador. A partir do dia em que o primeiro episódio foi para o ar que passei a ser reconhecido na rua e eu não estava nada habituado a isto!

QUAL FOI A SENSAÇÃO DE SER RECONHECIDO NA RUA?

Nunca fui influenciado para ser ator nem quis seguir esta profissão pela fama. No entanto, foi muito gratificante quando fui reconhecido pela primeira vez – é este o sentimento que quero ter sempre! Esta sensação de gratidão é um reflexo daquilo que tu queres transmitir às pessoas, porque isto de ser ator tem muito que se lhe diga – é mais do que decorar umas palavras e ir para lá debitá-las! Na minha forma muito ingénua de ver a coisa, eu acredito que nós temos de traduzir aquelas palavras em vida e deixar que tudo flua. Este exercício é muito difícil e é bom sentir que as pessoas gostam.

 

JÁ VIVESTE ALGUMA SITUAÇÃO CARICATA COM OS TEUS FÃS?

Houve uma vez que estava sentado perto do mar, no Estoril. De repente, apareceram 30 miúdos e começaram todos a cantar a música da Única Mulher! Primeiro, fiquei estupefacto com a situação. Depois, senti que tinha de mostrar isto ao mundo e peguei no telemóvel para filmar! Não estava nada à espera e foi muito engraçado!

 

QUAL É O PRÓXIMO GRANDE PROJETO QUE TENS NA MANGA?

O filme sobre o Eusébio é o grande projeto que está quase a sair e posso dar-vos o exclusivo: no dia 17 de Maio chega aos cinemas! Fiquem atentos!

 

COMO É QUE SURGIU A OPORTUNIDADE DE RETRATARES O PANTERA NEGRA?

Estava no carro à espera de um amigo e ligaram-me porque andavam à minha procura para um papel especial. Convidaram-me para o casting e, na altura, disseram-me que era para um filme sobre o Eusébio e que eu ia fazer o papel principal. Assim que desliguei a chamada, eu gritei – e ainda era só o casting, mas pronto, uma pessoa como eu não está à espera de uma proposta destas! Estamos a falar de um herói nacional que está sepultado no Panteão Nacional! Estamos a falar de uma pessoa que marcou uma nação a dar pontapés numa bola! É um ícone e uma pessoa muito amada e, só por isso, foi um privilégio e uma grande responsabilidade.

 

COMO É QUE TE PREPARASTE PARA ESTA PERSONAGEM? 

O processo e o estudo desta personagem foi um grande trabalho feito pelo realizador, o António Botelho, que estudou afincadamente a vida de Eusébio! A mim, custou-me a parte física porque eu tinha uma barriguinha que tinha de perder, porque o Eusébio, dos 16 aos 19 anos, que é quando se passa o filme, já era muito atlético. O filme mostra-nos da negociação entre o Benfica e o Sporting e a trama que foi o Benfica ter “roubado” o Pantera Negra. O Eusébio começou a jogar no Sporting de Moçambique, de Lourenço Marques. Foi convidado para vir para Portugal à experiência mas recusou porque sabia o seu valor – isto também foi uma das coisas mais importantes que retirei para a minha vida pessoal – temos de estar seguros sobre o valor que temos!

 

O QUE É QUE NOS PODES CONTAR SOBRE O FILME?

Este filme é muito mais do que a vida do Eusébio – serve para mostrar a sociedade portuguesa na década de 60, num regime salazarista, num regime em que tu sentes que o Estado tem muita influência até nas decisões que têm a ver com o futebol. Um major do regime do Estado Novo colocou o Eusébio num avião militar e viajou para Portugal sob o nome de código Ruth, que é o nome do filme. E isso diz muito. Mas não posso contar mais!

 

JÁ TENS MAIS ALGUNS PROJETOS PARA ESTE ANO?

Estou a preparar um novo filme sobre boxe, em que também tive a sorte de ser o protagonista! Ao mesmo tempo, estou a preparar uma nova série para a RTP (mas ainda não posso contar nada!). Para além de todos estes projectos, vou ser pai em Abril! A ideia de ter um mini-Igor (não se vai chamar Igor, calma!) é muito entusiasmante, só quero que ele chegue para podermos brincar!

 

Fotografias – Tomás Monteiro

Com um agradecimento especial à Timberland Avenida.