À primeira vista, 2013 não foi o melhor ano da vida profissional de Rita Brütt.

Actriz há 10 anos, com inúmeras peças de teatro, séries de televisão, longas-metragens e uma novela no seu currículo, viu este ano passar-lhe um pouco ao lado.

O papel de Isabel, a adolescente rebelde q.b. na série “Conta-me como foi”, foi a sua rampa de lançamento. “Participar neste projecto foi espectacular, toda a gente tinha prazer em trabalhar ali, havia muita atenção aos pormenores, à forma como aquela história era contada. E tive oportunidade de explorar aquela personagem durante 3 anos, cresceu comigo e estava em constante evolução, tal como eu”. Recorda com carinho a reacção das pessoas que se cruzavam consigo na rua e o que lhe diziam: “a minha mãe gosta imenso de ti e diz que tu eras ela quando era mais nova“, ouviu. Não há, em televisão, muitas personagens assim, com tanta dimensão.

Nem sabia a sorte que estava a ter.

Depois do “Conta-me”, nunca mais parou. A proximidade com Manuel Wiborg (com quem contracenava na série da RTP e interpretava o papel de “Padre Vítor”), que trabalhava com o encenador Jorge Silva Melo, acabou por levá-la a trabalhar muito com os Artistas Unidos. Se “Conta-me…” foi uma grande rampa de lançamento, esta companhia foi talvez a sua maior escola. Ensaiou mais do que nunca, às vezes começando meses antes da estreia da peça o que permitiu que não sentisse qualquer medo quando pisava o palco perante o público em noite de estreia. E, sobretudo, era-lhe dada responsabilidade total, sem ser dirigida de uma forma rígida para que pudesse descobrir e construir a personagem.

Trabalhou sem parar nos anos que se seguiram, e recentemente, depois de terminar o curso de aperfeiçoamento profissional pela La Nouvelle École dês Maîtres, com a qual viajou pela Europa a fazer espectáculos, pensou que este iria ser o ano da sua autonomia como actriz. “Agora é que vai ser”, pensou. Mas acabou por ser um ano com muito pouco trabalho. “Não sei se as pessoas achavam que não estava cá. Sempre que me viam, os meus colegas e pessoas com quem trabalho faziam-me uma grande festa “Estás cá?!!!”. ‘Sim, estou cá. Voltei!’ Na verdade, só estive fora dois meses.”

A “culpa” poderá ser da sua reserva quanto à exposição pública. É raro vê-la em revistas cor-de-rosa, que se alimentam de polémicas, o que não lhe interessa. Não é muito mediática mas admite que é um esforço consciente, um trabalho que faz para que assim seja (apesar de aceitar que por vezes se deixa desaparecer demasiado).

Um actor, quanto mais misterioso e reservado for, mais fácil se torna fazer o seu trabalho, e mais fácil é fazer as pessoas acreditar que se é quem se finge ser. Tudo o resto é sabotagem do meu próprio trabalho. Neste momento, para as pessoas que assistem ao meu trabalho, quero ser a Salomé dos Açores. Quanto menos Rita Brütt for, melhor!”

Por um lado, reconhece que precisa de ser vista para ter um público espontaneamente associado a si – até porque, como todos sabemos, para se ter trabalho em TV e Cinema convém que se seja mediático, pelo menos um pouco. Por outro lado, apesar de ter prazer em vender o seu trabalho, não gosta de se vender a si.

Como teve pouco trabalho, começou a pensar em construir o seu próprio projecto. Sobre ele, diz-nos que sabe que vai estrear em Março (porque tem de ser!), mas ainda não está pronto, há muito trabalho pela frente – de pesquisa, escrita, ensaio. Confessa que a angústia é muita, mas, porque trabalha há 10 anos e já sente alguma consistência no seu trabalho, não tem medo de arriscar, de fazer.

 “2013 tornou-me mais humilde. Um ano em que não tens muito trabalho e achavas que tudo estava garantido, põe-te os pés na terra e obriga-te a pensar no que fizeste, se haveria algo que poderias ou deverias ter feito de forma diferente”.

Nunca quis vincular-se e ter um contrato de exclusividade porque tinha muito trabalho, muitas ligações, conhecia muita gente com quem tinha trabalhado e uma das suas grandes vantagens era ser livre. Este ano obrigou-a a reflectir se essa foi a escolha acertada.  “Hoje em dia, com cada vez menos trabalho, quem não tem contrato, é o último a ser chamado, por isso a minha escolha de liberdade é hoje uma desvantagem. Mas foi uma escolha consciente.” Afinal, não se arrepende. Quem sabe se estaria onde está sem essa autonomia e liberdade de escolha? “O que fiz (e não fiz) este ano permitiu-me que o próximo esteja cheio de possibilidades, de portas abertas.”

Este foi um ano seu, um ano de formação, de introspecção. O facto de não ser um ano como esperado obrigou-a a fazer perguntas.

“Tive tempo para voltar a perceber quem é que eu sou e aos 30 isso é um grande privilégio. Vou continuar a definir o meu projecto de vida. Nada nos está vedado, e é mesmo verdade que a dificuldade aguça o engenho. É preciso trabalho, é preciso fazer, e sinto que tenho tudo nas minhas mãos.” 

 

Fotos: Diana Serpins (www.dianaserpins.com)