Desde que se lembra, Vera Kolodzig sempre foi actriz. Ou tinha muita vontade de o ser. Ainda tem. Começou a sua já longa carreira participando em spots publicitários. Plena de candura, ou não tivesse apenas 6 anos de idade. Os pais encolhiam os ombros e, contrariados, lá lhe faziam a vontade, que parecia ser muita. Antes de encarnar a personagem de Teresa, em 2000, ainda participou no Mini Chuva de Estrelas, um programa de jovens cantores que na verdade apenas faziam playback – “acting!”, esclarece Vera entre risos. Nessa noite, ajudada por uma amiga da família, imitou Marylin Monroe. Pode pensar-se que a actriz era a sua musa, mas às vezes a realidade estraga uma boa história. O que se passou, ainda que menos amoroso, é que Vera não sabia sequer quem era a grande diva de Hollywood: foi o pai que se lembrou, por causa do sinal que ambas têm no rosto. Com 9 anos, devorou os filmes da actriz, aprendeu os tiques e decorou a cena da ventoinha. Foi um sucesso. Acting, disse ela.

 

COMO SE TORNOU A TERESA DO HORÁRIO NOBRE

Aos 11, pisou pela primeira vez os palcos com a companhia de Thiago Justino, o teatro Multiculturas. O registo podia ainda ser amador, mas por lá se cruzou, por exemplo, com Joana Solnado, que também nos habituámos a ver no pequeno ou grande ecrã ao longo da última década. Um espectáculo depois, a meio de ensaios para o segundo, vai a um casting e é escolhida para o elenco de Jardins Proibidos. Terá sido difícil comunicar à companhia de teatro que outros voos a aguardavam, mas tinha de ser.

Foi assim que se tornou uma das personagens mais recordadas da novela que, pela primeira vez na história da ficção em horário nobre, ultrapassou uma produção da Globo. Hoje, sente-se um pouco incrédula pela longevidade dessa memória na cabeça de muitos espectadores que continuam a vê-la como a Teresa. “Depois há ouras personagens que as pessoas nem percebem que sou eu, não me associam a isso, mesmo novelas recentes com alguma exposição.”

 

WORK-LIFE BALANCE

Chamar-lhe work-life balance é um eufemismo. Vera recorda-se bem: “tinha muito cuidado com a escola. Estava fora de questão perder um ano. Nos Jardins Proibidos foi mais complicado; eu, a Daniela [Ruah] e a Maya [Booth] fomos as primeiras 3 miúdas.” Que não se pense que isto impediu Vera de fazer os TPC, da escola ou da TV. “Dormia pouquíssimo,” conta, e manteve os estudos como prioridade última. A equipa da TVI terá percebido o jovem talento que tinha em mãos e assegurou que as gravações de novelas seguintes acontecessem num horário mais reduzido por forma a que ninguém tivesse de faltar às aulas.

Aos 18 anos, já com uma experiência invejável para alguém da sua idade, mudou-se para Londres, onde começou por estudar representação, transitando para teatro contemporâneo. Mesmo para quem levava já currículo, a experiência não foi fácil: “Lá deitam-nos abaixo, convencem-nos que não fomos feitos para aquilo e tens mesmo de acreditar no que queres e tens de dar a volta. As pessoas são diferentes, não tão abertas.” Entre alguns regressos a Portugal para gravar outras novelas, terminou o ciclo de estudos, mas não sentiu que chegasse para regressar de vez a casa. Seguiu-se Nova Iorque, onde passou 3 meses a estudar, mas para Vera uma temporada longe de casa é mais do que se escreve no CV: “adoro viajar e acho que crescemos muito com esta coisa de estudar fora, não só na área mas também a nível pessoal”. Damos-lhe a escolher entre Londres e Nova Iorque e não tem dúvidas: “NY é uma cidade incrível onde me via a viver, muito mais do que em Londres. Não me deixou saudades, acho uma cidade muito mais solitária do que NY.”

 

DA REPRESENTAÇÃO A OUTROS PROJECTOS

A mudança de curso em Londres não foi um acaso: “Era mais abrangente. Era um curso de criação: tinhamos de aprender a fazer tudo. Produção, tudo! Dá-nos ferramentas!” Descobriu que havia mais do que “acting” e assimilou novas ideias e ferramentas. Onde uns vêem impedimentos, outros encontram oportunidades. Não está a fazer novelas neste momento, mas já vê mais à frente: “Estou numa fase em que não estou a fazer novelas e tenho ferramentas para pegar em mim e construir um projecto de raíz. Tenho muitas ideias que gostava muito de concretizar cá em Portugal.”

Há mais projectos para além da representação e nem tudo está na tv. Voltamos ao início e pedimos-lhe que os ponha lado a lado, o teatro e a tv: “Eu gosto muito de fazer teatro. São linguagens muito diferentes, mas eu gosto de fazer tudo. No teatro há mais tempo de preparação, tempo de pesquisa e estamos no momento.”

Confessa que ainda não teve muitas oportunidades de fazer teatro em Portugal, isto se descontar Confissões de Adolescente – “ainda era muito miúda”. Pareceu-nos um lamento, mas aquilo que procura está em Portugal: “Já tive alturas em que pensei em ir para for a mas também percebo que seria muito mais feliz a fazer qualquer coisa cá -  uma peça de teatro cá, por exemplo -  do que ser conhecida internacionalmente. Antes de viver fora tinha essa ideia, que lá fora é que era mas foi lá que percebi que Portugal é maravilhoso. A qualidade de vida não se encontra em lado nenhum, a proximidade das pessoas, o tempo. Lisboa é uma cidade linda e gosto muito de viajar mas voltar a lisboa.” Podíamos confundir esta resposta com resignação. Pelo contrário: “Acho que cheguei a um ponto em que me apercebi que gosto muito do que se faz cá. Aprendi a apreciar. O que se passa é que, poe exemplo, nos Estados Unidos, há muitos subsídios e faz-se muita coisa má. Cá não. Há menos mas com maior qualidade.”

Tem dificuldade em nomear referências, mas acaba por nos falar da Naomi Watts de Funny Games ou 21 Grams, de Juliette Binoche, e de Jack Nicholson. Em relação a este último, explica-nos porquê: “Sei que é um cliché mas acho que tem um grande motivo: a sua capacidade de transformação. Acho interessante a esta coisa de os actores poderem ser feios.” Por cá, explica, encontra uma mentalidade distinta: “Se é gira não é actriz, é celebridade.” Com consequências: “Não há espaço para a pessoa fazer coisas diferentes. Cá há algum preconceito. Como faço novelas da TVI, não tenho grande oportunidade de fazer outras coisas. Tenho formação – o que não quer dizer que sou melhor, mas investi algum tempo nisso e não chegam a mim as audições para teatro não chegam até mim.” Recorda com entusiasmo uma oportunidade surgida em 2011, quando substituiu Inês Castel-Branco na peça "39 degraus".  “Estive em digressão com essa peça durante 9 meses, mas foi das poucas vezes que pisei um palco. Gostava de poder fazer mais isso. Hei-de conseguir!”

 

NÃO SÃO FÉRIAS, SÃO VIAGENS

Por muitas voltas que déssemos, voltaríamos sempre às viagens, alimento para a alma de Vera: “As viagens são mesmo a minha verdadeira inspiração. África foi espectacular, tenho um blogue com o Diogo Amaral onde conto tudo. Foram 2 meses e meio : Moçambique, Madagáscar e África do sul.” Viagens, não férias: “Não vou fazer férias, é mesmo para viajar. Gosto muito de ir de mochila às costas para conhecer as culturas e as pessoas.”

A propósito, revela que guarda da sua infância um objecto muito importante e um hábito frequente: “Tenho um globo enorme, que herdei do meu pai, que tem uma luz, é um mapa muito desactualizado porque tem mais de 40 anos mas adoro olhar para o globo e sonhar com a próxima viagem.” Ásia há 3 anos atrás, África entretanto, e muito mais mundo para conhecer: América do Sul, quem sabe Islândia.” Uma das viagens, a África, foi feita para integrar um programa voluntariado. O balanço não é o melhor: “Foi um pouco frustrante. É muito pessoal, muda-nos muito. Conheci outra realidade e trabalhei numa associação muito corrupta e os miúdos estão em situações horríveis e não está ali ninguém a faezr nada.” Mas não desarmou e mantém a sua ligação a projectos de cariz social: “Fiquei muito feliz quando comecei a trabalhar com a HELPO, uma associação portuguesa que actua em Moçambique. Sou madrinha há algum tempo e nesta viagem tive oportunidade de lá ir e conhecer os projectos deles e fiquei mesmo feliz e aliviada por ver que nem tudo era mau neste mundo.”

Perfeito mesmo, como suspeitávamos, era se às viagens juntasse projectos de teatro. Já o fez, mas quer mais: “também viajei bastante a fazer workshops de teatro. Queria muito ser viajante. Queria muito fazer projectos de comunidade que envolvesse teatro, em vários países. Porque isso envolve mesmo tudo o que gosto de fazer.” Depois de a conhecermos, suspeitamos que só falta a Vera Kolodzig olhar para o globo e sonhar com a próxima viagem. De mochila e sonhos às costas. Ou, como ela prefere dizer, “onde o vento me levar”.

 

MODA

“Gosto de me sentir confortável! Não tenho um estilo muito definido, é o que me apetece. Gosto muito de mudar e quando faço novelas e a minha personagem exige uma grande mudança de visual. É uma coisa que me atrai muito na profissão de actriz é poder viver na pele de outra pessoa. E uma mudança de visual ajuda bastante. Ver-me ao espelho e não me reconhecer dá-nos qualquer coisa a mais. Ajuda no processo de representação. Não sinto conflitos nenhuns, façam-me o que quiserem: pintem, cortem.”

“Há uma estilista do porto que me ajuda e me veste, a Cláudia Oliveira, gosto muito dela! E adapta os vestidos à minha preferência. A Katy Xiomara também já me vestiu e gosto muito das coisas dela.”

 

SÍTIO FAVORITO EM LISBOA

“Gosto muito dos vários miradouros da cidade. Gosto do Noobai [no miradouro de Santa Catarina, Lisboa], onde estamos por exemplo! Gosto de sítios com vista. Gosto muito desta zona de santa Catarina.”

 

RESTAURANTES

“Pharmácia, porque gosto muito da onda dos petiscos. A Taberna das Flores, a Taberna Ideal. Adoro petiscar! Ou o 100 Maneiras, quando não me apetece petiscar, apetece-me 100 maneiras!”

 

E O BLOGUE?

“É um projecto meu e do Diogo [Amaral] que começou em África mas vai continuar, agora vamos falar também dos Açores e Madeira, onde estivemos a fazer um trabalho! E queremos continuar, com outros sítios de Portugal. Viajo muito cá dentro, este verão pude aproveitar e viajar muito: Cacela, Serpa, Marvão que é INCRÍVEL! Tem uma vista linda, vê-se tudo, é lindo, lindo, lindo.”

 

Saiba mais sobre a HELPO aqui.

Siga o blogue de Vera e Diogo, Yellow Jump, aqui.

Agradecemos ao Noobai por ter cedido o espaço para a realização desta entrevista.