É no lugar onde, outrora, se ergueram as instalações repressoras da liberdade, que um dos ateliers mais criativos de Lisboa ganha vida. Pode ser uma contradição poética pensada ao pormenor mas, na verdade, foi apenas uma coincidência interessante. É na Rua António Maria Cardoso, no antigo local da Pide, que o joalheiro e artista plástico, Valentim Quaresma, decidiu assentar.

Entramos pelo portão de ferro e viramos à direita. A música electrónica que toca aos altos berros confere um ambiente ritmado que contrasta profundamente com a aparência pacata do criador. Valentim Quaresma é a confirmação mais clara de que não devemos julgar um livro pela capa.

Sentamo-nos a uma mesa rectangular larga – carregada de papéis, pedaços de metal e pulseiras acabadas de fazer – e Valentim começa por contar que os seus dias são um constante balanço entre a rotina e a criatividade: Assim que chego ao atelier, a primeira coisa que faço é ver os emails. Assim não tenho de me preocupar mais com isso! Depois, tenho uma reunião com a minha equipa e planeamos o dia de trabalho. Todos os dias são diferentes, mas o momento mais entusiasmante é quando estou a criar algo novo!

Para os olhares forasteiros, o atelier que ocupa pode parecer um caos, no entanto, é uma barafunda organizada que torna palpável a imaginação do designer. Veio parar ao Chiado com outros artistas porque sempre trabalhou em espaços partilhados:  O critério fundamental era encontrar um espaço com luz. Passei muito anos num espaço sem luz a dia. Viemos todos para aqui. Mas passado algum tempo, os outros artistas começaram a sair e acabou por ficar só o meu espaço. Agora, considero este atelier como a minha primeira casa. É aqui que eu passo a maior parte do tempo. Sinto-me muito confortável.

O atelier é um espaço curioso, carregado de objectos interessantes que não nos deixam fixar os olhos em nada por mais de cinco segundos sem que outro ponto de interesse surja. No entanto, Valentim afirma: Não tenho nenhum objecto específico de inspiração, na verdade, é tudo o que me rodeia. Mas tenho mais inspiração quando faz sol. O sol é uma inspiração total. Mas às vezes, fico preso num bloqueio criativo porque quando estou a trabalhar num conceito, mergulho tanto nele que é difícil sair. E quando isso acontece, preciso de parar durante 10 minutos e só depois retomar.  O meu trabalho é baseado na pesquisa, na experimentação e na recriação – quase como se fosse um laboratório – e às vezes as coisas não resultam. Quando isto acontece, é preciso voltar a experimentar os materiais e voltar a olhar para os moodboards para tentar descobrir uma solução.

O seu trabalho é um patchwork de inspirações, moods e vibes difíceis de precisar, resultantes do seu método de trabalho: Costumo criar através de materiais usados, não é reciclagem mas sim, upcycling. Qualquer pessoa sabe fazer upcycling quando falta o dinheiro para comprar os materiais, temos que agarrar o que temos à volta. Foi assim que começou, comecei a pegar em materiais que já tinha, peças que já existiam e a criar coisas novas. O upcycling é isso mesmo, é elevarmos o valor das coisas com que trabalhamos com criatividade. A criatividade é inovar, é não ser previsível e estar seguro das ideias que apresentamos e é assim que quero ficar conhecido, pelo meu trabalho, por aquilo que faço, por aquilo que proporciono às pessoas que trabalham comigo.

Quisemos descobrir qual a relação de Valentim com as tendências de moda que circulam nos dias de hoje, ao qual o criador respondeu peremptoriamente: Esse conceito não me diz nada. Vivemos numa época em que não sei se faz sentido falar em tendência. Daqui a 30 anos, se olharmos para aquilo que se fez hoje, pode-se arranjar uma tendência em termos evolutivos e em termos de moda, tal como olhamos para os anos 90 e para os anos 80, e conseguimos perceber uma corrente específica. Mas falar numa tendência actual, do que se vai usar daqui a 6 meses ou daqui a 1 ano, para mim não faz sentido. No meu trabalho, este conceito não está presente, até porque a tendência sou eu próprio que a crio, com base na pesquisa e através das minhas colecções.

Fotografia – Teresa Costa Gomes